2010-10-29 14:16:15 | 1 comments

MillenniumBCP Cliente Prestige

Há muito tempo que ando para comentar esta imagem. Não só por causa da minha ligação com o Surf e com a comunidade “surfística”, mas também pelo interesse que tenho na imagem do Surf e em todas as suas variantes e metamorfoses.

O MillenniumBCP comunica o seu Programa Prestige através desta imagem composta por um indivíduo do sexo masculino, adulto, cabelo grisalho, de constituição atlética, sentado numa prancha de Surf, no mar, como se estivesse à espera de uma onda. Enquanto espera pelo set, olha para o seu telemóvel (que denota um iPhone) como quem se olha ao espelho. No ecrã do telemóvel encontra-se o símbolo do MillenniumBCP. Seguindo o percurso do olhar, o elemento seguinte é o signo linguístico “Escolha Ser Prestige” em que o “Escolha” encontra-se separado do “Ser Prestige” não só pela variação do tipo (fonte) usado, mas também pela posição topográfica de ambos.

É bom lembrar que a imagem do surf sofreu grandes alterações ao longo dos tempos. Houve épocas em que o Surfista era conotado como vádio, vagabundo, drogado, e até mesmo criminoso. A imagem deste sujeito era a de alguém que vivia na praia, de calções e chinelos, e que, para além de surfar, envolvia-se em conflitos, roubos, drogas, etc… Muitos meninos e meninas que queriam começar a surfar tinham sérios problemas com os pais precisamente por causa desta imagem. Ao longo dos tempos, estas conotações foram-se dissipando e dando lugar a conotações bem mais positivas como “cool”, “irreverente”, “moderno”, “coragem”, “dinâmico”, etc... Enquanto surfista, sinceramente, não sei qual das duas é pior.

No entanto, existem conotações associadas a esta modalidade que nunca se alteraram. Todos os surfistas (se calhar nem todos) conotam o Surf com conceitos como “pureza”, “harmonia”, “saudável”, “liberdade”, “amizade”, entre outros, independentemente da época, e esforçam-se por fazer passar essa imagem, e acabar com estereótipos à “Morangos com Açúcar”.

O Millennium explora o mito do Surf, associado a um determinado estilo de vida, que transporta todas estas conotações, para publicitar o seu Programa Prestige. Em particular explora um fenómeno que começa a ser cada vez mais comum. O Surf deixa de estar associado só aos jovens e, cada vez mais, aparecem indivíduos mais velhos dentro de água. Ou porque são gerações mais velhas de surfistas que nunca deixaram de surfar, ou porque simplesmente estão a aprender. Este, pela maneira como está sentado na prancha e pela prancha que utiliza, está claramente a aprender.

Este indivíduo transporta consigo determinadas conotações que, num mix com o mito do Surf, criam o Cliente Prestige (ou o Surfista Prestige como gosto de lhe chamar). São conotações de “riqueza”, “poder de compra”, “poder de investimento”, “visão estratégica”, “negócio”, “empresário”, etc. Basicamente existem dois signos que desempenham um papel fundamental a comunicar esta imagem. O cabelo grisalho e o iPhone.

Assim sendo, a relação metafórica entre o Surf e o cliente Prestige é levada ao extremo, através de um oxímoro, quando vemos este à espera de uma onda, com o seu iPhone dentro de água. Através do Surf, o sujeito Prestige, que à partida associamos a um senhor de fato e gravata, com pelo menos 50 anos, cheio de cartões de crédito, barrigudo e com a pressão arterial alta, passa a ser um atleta, jovem, fresco, com um estilo de vida saudável, e… surfista.

O cliente Prestige é também alguém com liberdade de escolha. Esta informação é dada pelo signo linguistico “Escolha”. A campanha dirige-se ao leitor não no sentido de lhe colocar uma questão, mas no sentido de sugerir. “Escolha” é uma sugestão de alguém que respeita a formalidade (“escolha” e não “escolhe”), que é um conselheiro. Escolher o quê? “Ser Prestige”. Ser um cliente de prestigio, como este que é mostrado. Adulto, classe média, com poder de compra, talvez jovem empresário, surfista, dinâmico, livre, em harmonia com a natureza, usa um iPhone, e o seu banco é o MillenniumBCP, que está disponível em qualquer lado, a qualquer hora, até mesmo dentro de água. (A imagem não diz, mas aposto que também conduz um Porsche Boxter…)

Há algum tempo atrás um amigo meu, depois de ter surfado, disse-me... “Que saudades que eu tenho de quando o Surf era sinónimo de drogado e vádio!!”…


Comments

fantástico artigo!


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